“Nunca esteve em causa a minha luta contra a pedofilia na Igreja”
É Bispo do Porto desde 2018, mas é em Lamego que estão as raízes de D. Manuel Linda. Defensor do conceito de família, vê nos jovens o futuro da Diocese do Porto. Acredita que foi mal entendido em 2022, nos casos de pedofília, mas salienta que sempre foi um dos que lutou contra este “mal” que se instalou na Igreja. Aos 68 anos, confessa que gosta de se misturar na multidão, de música e de uma ida à praia.

Recentemente, numa cerimónia que decorreu no Europarque foi mencionado o projeto 'Dioceses Amigas da Família'. Em que consiste esta iniciativa e em que fase de desenvolvimento se encontra?
Este projeto já tem, talvez, uns cinco anos. Desde essa altura, o secretariado Diocesano da Pastoral da Família reuniu-se e congregou com psicólogos, técnicos da área social e economistas que facilitam a gestão da economia familiar. E surgiu porque sabemos que há tanto conflito neste momento e que não é fácil, atualmente, a família ser família. Deste modo, são instrumentos que nós colocamos, de forma gratuita, à disposição das famílias que precisem. O objetivo é este mesmo, não é no sentido religioso, nem da formação da fé, mas sim, no sentido de ajudar a estabelecer a coesão familiar.
O projeto está implementado, de uma forma ou de outra, por todos os concelhos aos quais nós designamos de vigarias da Diocese do Porto. Assim, nessa cerimónia, o meu objetivo foi divulgar esta iniciativa, pois considero que, infelizmente, ainda é pouco conhecida.
No seio dessas, e outras famílias, existem muitos jovens. Como é que tem sido, nos últimos tempos, a relação de Diocese do Porto com os jovens?
Em termos globais, temos experiências disparas. Por exemplo, nas zonas e paróquias, fundamentalmente, em que o sacerdote ou outros agentes pastorais congregam os jovens e têm o seu grupo, notamos um dinamismo forte. Nas outras, em que isso não existe, notamos que os jovens não marcam a sua presença na Igreja, ou então, fazem-no de uma forma muito reduzida.
Não haja dúvidas que a Jornada Mundial da Juventude foi um despertar. E este evento não foram apenas os quatro ou cinco dias no Parque das Nações, em Lisboa. Foram dois ou três anos antes, de trabalho muito intenso e que incluiu a passagem dos chamados símbolos: a Cruz e o ícone de Nossa Senhora, e isso originou um dinamismo absolutamente espantoso. Outro exemplo foram os estabelecimentos prisionais, que são ambientes difíceis de entrar pela sua própria natureza, e que abriram as suas portas para receber os símbolos. Enfim, e tantos outros aspetos em que a dinâmica juvenil foi fundamental. Não fomos nós, os mais velhos, que preparámos tudo isto. Foram sim, os jovens e aqui sob a alçada da Pastoral Juvenil da Diocese do Porto.
Mesmo no campo universitário, estamos a trabalhar muito bem, mesmo sem integrar todos os jovens universitários. Sem ter a pretensão de mudar a doutrina de cada um, até porque não é a função do Bispo do Porto, pedi-lhes que se pronunciassem sobre o que esperam, futuramente, de uma organização como a Diocese do Porto.
E aceitaram o desafio?
Sim, e depois uma equipa central da Diocese escolherá os 10 temas mais votados. Aliás, estamos neste momento neste processo. A seguir, de dois em dois meses será deliberado um tema para que os variados os grupos que se constituíram e mesmo aqueles jovens que, não participando da Igreja Católica de forma habitual, possam refletir sobre essas temáticas, fazendo propostas. Ainda vai demorar algum tempo, mas o objetivo é aprovar os dez temas determinantes para o futuro da Diocese do Porto sob a perspectiva juvenil.
Se eu cá estiver, assumirei o compromisso que eu tenho com os jovens e irei seguir essas linhas de orientação, pois de alguma maneira também são a voz de Deus para este tempo.
Contudo, e apesar da envolvência destes muitos jovens, a Igreja continua a ter o problema da falta de padres. Apesar de ser uma questão a nível nacional, como é que explica esta ausência dos 'profissionais' da fé?
Sem lançar areia para os olhos de ninguém, tenho noção que é o grande problema da Igreja neste momento. Em Vila Real, conheço bem os números porque fui reitor num seminário de lá. E é curioso que apenas 9% dos alunos que entraram para efetuar os seus estudos nesta área, acabaram por ser padres. Os restantes 91% acabaram por prosseguir outras carreiras profissionais.
Aliás, o Porto chegou a ter cerca de 900 padres e, hoje, tem 240. É uma diferença muito grande, embora, atualmente também não fosse necessário tantos párocos.
Não obstante, este problema coloca-se hoje, mas vai acentuar-se ainda mais daqui a dez anos. Grande parte dessas pessoas que foram sendo formadas, já têm uma idade acima dos 80 anos. Atualmente, temos ainda vários sacerdotes na vida paroquial com mais de 90 anos.
Nestes seis anos, já ordenei 34 padres aqui na Diocese do Porto. Um número razoável, mas, obviamente, não chega para repor aqueles que necessitam de ser substituídos. Portanto, é um problema que temos de enfrentar e não sabemos bem como.
E pegando no tema da substituição, no seu caso foi difícil substituir D. António Francisco dos Santos, uma personalidade tão icónica desta Diocese?
Não diria que foi difícil, até porque nenhum de nós é espelho dos outros.
Eu, se quisesse imitar o D. António Francisco, não conseguia. Cada um tem a sua maneira de ser, não é? Cada um tem a sua maneira de ser e há que respeitar. Trata-se, acima de tudo, de um amigo grande. A minha origem é da mesma diocese dele.
Ainda esta semana tivemos a chamada Missa de Sufrágio que é por aqueles que foram ordenados bispos, padres e diáconos e que já faleceram. É um velho costume e é também uma celebração realizada no dia da morte do último Bispo. No caso de D. António Francisco dos Santos foi a 11 de setembro.
Agora, o D. António Francisco, de facto, captou por aquela parte mais afetiva, e é a única que, ao fim e ao cabo, nos leva a conquistar a simpatia dos outros, a afetividade. Tinha uma capacidade única, que poucos têm, de decorar nomes, datas, situações e rostos. Encontrava uma pessoa e passado 10 anos, era capaz de se recordar.
A memória dele continua viva.
D. Manuel Linda tem por hábito levar a sua fé para além das fronteiras. Recentemente, esteve em Angola. Como foi essa experiência?
Nós estamos numa sociedade de mobilidade, portanto mesmo que não fosse até por motivos de interligação religiosa, o facto de nos dirigirmos e observarmos outras dioceses, com a sua dinâmica, carências e valências, já é importante para o Bispo. Hoje, não podemos meter a cabeça na areia, convencidos que sabemos tudo e que temos só o Espírito Santo para nós e para governar as dioceses Ainda mais, quando vivemos um tempo em que o Papa Francisco nos fala tanto na capacidade de vermos, ouvirmos, dar a opinião e receber a dos outros.
Além disso, a minha vocação religiosa começou com a vontade de seguir a via de missionário. As circunstâncias da vida levaram-me para um seminário diocesano e fui um padre da diocese, mas este fervor missionário nunca desapareceu por completo. E portanto, nas nossas igrejas irmãs, nomeadamente, aquelas que falam a língua portuguesa, são relevantes nesta interligação. São os casos da Guiné Bissau, Moçambique e Angola.
Quando cheguei ao Porto, dei conta que em muitas paróquias há grupos que apadrinham outras paróquias ou instituições oriundas de São Tomé e Príncipe e até de Cabo Verde. E não é só apadrinhar no sentido de mandar para lá dinheiro ou isto ou aquilo. É no sentido também de dar o corpo e participar no desenvolvimento das comunidades.
No ano de 2022, viu o seu nome aliado a várias polémicas, nomeadamente, com os casos de pedofilia no seio da igreja…
Tenho de reconhecer que, por culpa minha, usei expressões que, de facto, não foram as mais felizes. No entanto, nunca esteve em causa a luta contra esse fenómeno dramático, aliás o mais grave que é possível para membros da Igreja.
Só que eu, quando cheguei à Diocese de Porto só encontrei um caso de uma pessoa já falecida.
Depois, chegou um outro e eu estava convencido que era capaz de resolver a situação.
Atualmente, tenho a noção que há pessoas que ficaram tão marcadas contra a instituição, que não era conveniente que fosse uma pessoa da Igreja a atende-las. Foi neste contexto de boa vontade que eu usei algumas expressões com o sentido de dizer que se ia cortar a direito. No entanto, deu pretexto para algumas críticas, digamos assim. De qualquer maneira, estou na linha da frente, juntamente com os meus colegas, na luta contra este fenómeno. Amanhã (última terça feira), no Conselho Permanente, de que eu sou membro, vamos aprovar um comunicado que depois virá cá para fora, para dizer que quem se sentiu ofendido pode, digamos assim, apresentar o seu caso e será indemnizado, de acordo com critérios da atual comissão independente que, entretanto, foi criada.

“Nas Forças Armadas
encontrei autênticos
santos”
Foi nomeado Bispo do Porto em 2018, mas foi ordenado presbítero a 10 de junho de 1981, dia de Portugal. Contudo, o seu percurso esteve relacionado com o ensino, passando por escolas e universidades. Como é que carateriza essa experiência?
A vida levou-me, sempre, para onde eu me senti bem. Fui ordenado nesse dia, não por ser Dia de Portugal, mas sim porque o falecido D. António Cardoso Cunha fazia 25 anos enquanto Bispo. Desse modo, foram ordenados cinco sacerdotes do meu curso.
Na altura, instalou-se muito perto da minha paróquia, a Escola Superior de Enfermagem de Vila Real. Um dia, a convite da diretora dessa escola, participei num seminário intitulado 'A pessoa perante a morte', juntamente com vários especialistas da área. Logo de seguida, a mesma diretora, lançou-me o desafio de ser docente de uma disciplina que no início nem sabia o que era. Certo, é que estive ligado a esta escola durante 30 anos, tendo até pertencido ao Conselho Científico. Contudo, condicionou muito a minha formação, pois o Bispo da altura queria que eu fosse para Roma estudar História da Arte, mas o gosto pela bioética foi mais forte.
Depois, ainda fui professor na Universidade Católica, colaborei com outras universidades mais a nível de teses, como membro de júri e orientador. Na Católica aprendi muito tanto na Escola das Artes, como na de Direito.
Do ensino dá um salto até às Forças Armadas. Como é que explica este salto tão 'fora da caixa'?
Nem eu próprio estava a contar, nem mesmo pela idade que já tinha em 2014. Contudo, posso-lhe garantir que foi também das fases mais felizes da minha vida. Encontrei gente com muito valor humano e, mesmo não fazendo canonizações em vida, apetece-me dizer que encontrei autênticos santos. Gente muito, muito boa e com uma formação protocolar e institucional de muito respeito. Fo um tempo belo que me marcou.
Para terminar, gostaria de saber quem é Manuel Linda sem o Dom na sua designação?
Os outros podem dizer melhor do que eu (risos). Sou uma pessoa que não sou complicada, embora a consciência deontológica de Bispo me obrigue a tomar medidas quando elas são absolutamente indispensáveis.
Sou a pessoa que gosta de se confundir com a multidão no sentido de não me esconder, mas de me sentir ao mesmo nível dos outros. Gosto de música, de praia e este ano, infelizmente, não tive tempo de ir até ao areal.